PRECISAMOS DE LUZ
Escrito por: Virgílio Barros | Categoria: Mensagem
Pior do que ser cego fisicamente é ter aptidão para ver e não querer ver. Todos nós sabemos quão importante é a luz para vermos os contrastes das cores, das formas, dos altos e baixos-relevos e de toda a variedade que nos circunda. A escuridão não nos deixa ver estas coisas. Ela impede-nos de ver a profundidade, a altura, a largura e o comprimento de qualquer objecto ainda que esteja a escassos centímetros de nós. Mas, como dizíamos acima, pior do que estarmos envolvidos na escuridão física é vivermos numa escuridão constante que castra os nossos olhos da mente, da razão ou seja do coração. A cegueira cria as condições para uma morte mais célere e, provavelmente sem nexo. Foi José Saramago que colocou na boca de uma das suas personagens, no seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, a frase seguinte: morrer só porque se está cego, não deve haver pior maneira de morrer”. Já o profeta Isaías, dirigindo-se a um povo decadente, escreveu: “Apalpamos as paredes como cegos; sim, como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como no crepúsculo, e entre os vivos somos como mortos” (Isaías 59:10). De facto, a Palavra de Deus sempre alertou para esta situação que o ser humano vive por se encontrar longe da verdadeira fonte de luz. Por isso Jesus afirmou, categoricamente, que era a luz do mundo e que quem o seguisse não andaria em trevas, mas teria a luz da vida (João 8:12). No entanto, a situação do ser humano é que ele ama antes as trevas do que a luz porque as suas obras são más (João 3:19).
Estando conscientes desta realidade, precisamos de fazer como o apóstolo Paulo que não cessava de orar pelos crentes em Éfeso para que, à medida que iam conhecendo plenamente Cristo, fossem cheios do espírito de sabedoria e de revelação. Nós precisamos de muita sabedoria para vivermos num mundo com estas características depravadas; precisamos da revelação de Deus para nos orientarmos neste mundo caótico. A oração, porém, produz um outro efeito em nós que é a iluminação dos olhos do nosso coração. Paulo continuou a escrever o seguinte: “sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder, para connosco os que cremos” (Efésios 1:18-19).
De acordo com o pensamento de Paulo há três coisas que o ser humano precisa de saber: qual a esperança da vocação, qual a riqueza da herança e qual a grandeza do poder. O que não podemos esquecer é que entre a preposição “de” e o segundo substantivo existe o pronome “seu” ou “sua”, o qual está em vez do nome Deus. Portanto, a vocação, a herança e o poder são de ou têm a sua origem em Deus. Para que saibamos o objecto de cada acção de Deus necessitamos de ter os olhos do coração iluminados. Paulo fala de um saber empírico, devido à palavra grega que ele usa no seu texto. Ele está a falar do saber que se adquire pela experiência, resultado daquilo que vivemos no nosso dia-a-dia, mas que, entretanto, devemos reconhecer que é produto da acção de Deus.
Ele começa por falar na esperança que é produto da chamada (vocação) de Deus. Para entendermos isto falemos um pouco da esperança que tem o desempregado quando é chamado para uma entrevista, ou da esperança que tem o doente que se encontra numa lista de espera quando é chamado para uma consulta. Deus também nos chama, nos convoca para a comunhão com Ele, pois estávamos ou estamos alienados da sua presença por causa da nossa rebeldia, do nosso egocentrismo, da nossa presunção e concupiscência. Vivemos cansados e desesperados desta vida, até que a esperança renasce em nós quando ouvimos a chamada de Deus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).
Em seguida, Paulo fala da riqueza da glória da herança que Deus tem preparado para nós. No nosso dia-a-dia ouvimos muitas pessoas dizerem que são pobres porque os seus pais nunca lhes deixaram herança. As pessoas sentem-se miseráveis porque não lhes saiu o euromilhões ou a lotaria. Quando falam em riquezas, elas só pensam no seu pecúlio. Mas já ouvimos falar que pessoas que receberam fabulosas heranças desgraçaram a sua vida para sempre. A riqueza pecuniária não é sinónima de herança satisfatória. Deus promete-nos uma herança gloriosa. A glória que Deus nos outorga não se compara à fama nem ao sucesso adquirido aqui na terra. Os bens da terra não são colocados num camião para seguir atrás de um cortejo fúnebre. As pessoas até podem gastar o seu dinheiro numa cerimónia luxuosa, com um caixão que custou uma fortuna, mas tudo isso se desfará em pó quando enterrado no cemitério. Deus preparou-nos uma herança que será para toda a eternidade.
Por fim, o apóstolo fala da grandeza do poder de Deus. A palavra “grandeza” poderá ser interpretada figurativamente por “potência” ou “capacidade”. À medida que vamos envelhecendo reconhecemos que nos faltam as forças, vamos perdendo capacidade e aptidão para a realização de determinadas tarefas que seriam tão banais uns anos antes. Enquanto uns continuam a confiar nas suas potencialidades, outros sentem-se exangues, cansados de remar contra a maré. Mas o crente experimenta na sua vida a potência do poder de Deus. A palavra usada, em grego, para “poder” é dunamis, de onde se originou a palavra “dinamite”. Nos dias que correm, poderemos falar da fusão nuclear, que liberta luz, calor e radiação, ou da fissão nuclear, que feita bruscamente cria a bomba atómica, para dizer que o poder de Deus é muito superior a isso. Os crentes têm o poder de Deus que os potencia para a realização de obras extraordinárias, ainda que a vida lhes surja injusta e madrasta.
A oração é fundamental para que tenhamos um conhecimento vivencial dos benefícios que Deus tem para nós em termos de esperança, riqueza e potencialidade. Quanto mais orarmos, mais reais se tornarão para nós todas estas experiências. Os nossos olhos do coração ou do entendimento receberão a luz necessária para as reconhecermos.

