ESPERANÇA PLENA
Escrito por: Virgílio Barros | Categoria: Mensagem
Cada vez que iniciamos um novo ano, voltamos a renovar as nossas esperanças esperando que este ano seja melhor do que o ano anterior a todos os níveis da vida, na saúde, no trabalho, na família e até no lazer. Mas a crise mundial, provocada por um pequeno grupo de gananciosos que não estão satisfeitos com os lucros que obtiveram, tem sido a causadora de todas as angústias e desesperos do ser humano. Desespero esse que Sören Kierkegaard designa como “doença mortal”, porque pelos seus próprios meios não consegue libertar-se dele. No fundo, o desespero existe porque todos nós ansiamos algo, e quando não atingimos esse propósito entramos em desespero, a esperança desaparece em nós e ansiamos a morte.
Mas do cristão espera-se coisas melhores que acompanham a salvação que adquiriu pela fé no Senhor Jesus Cristo. O autor da epístola aos Hebreus no capítulo 6 e versículos 11 e 12 escreveu: “E desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até o fim, para completa certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas”.
O desespero deixa de actuar em nós quando não somos nós a estabelecer os alvos, mas aceitamos os objectivos de Deus para a nossa vida. Estes objectivos estão exarados em termos de promessas que Deus fez com o Seu povo, e, até à data, aqueles que depositaram a sua confiança nas promessas de Deus verificaram que Ele nunca falhou. Essas promessas são de variada ordem ou espécie, por isso, não podemos viver angustiados com o que quer que seja, desde as nossas necessidades físicas até às espirituais e emocionais e psíquicas e sociais. Quando a nossa esperança está definida na eternidade, em consonância com o Autor das promessas, o desespero termina.
No entanto, há três coisas que o escritor de Hebreus quer que o cristão faça. A primeira é que mostre zelo até o fim. A palavra “zelo” significa “diligência, solicitude, cuidado, interesse, desvelo, dedicação” entre outros sinónimos. O zelo é caracterizado também pela agilidade e rapidez com que se faz as coisas. Neste contexto, o autor está a falar da demonstração do amor pelo nome do Senhor e do serviço para com os outros crentes. Afinal, o amor que temos a Cristo demonstra-se no serviço, no diaconato realizado aos santos na fé. Este tipo de vivência tem de ser levado até o fim. É assim que vivemos a esperança plena. No nosso dia-a-dia, não pode deixar de haver este propósito, por muito que a crise nos afecte. Ela deixará de ter qualquer efeito sobre nós, quando estivermos empenhados em amar a Jesus e servir o nosso próximo.
A segunda característica do cristão que vive em esperança plena é não ser indolente. Esta palavra tem como sinónimos os termos “apático, ocioso, inerte, insensível, preguiçoso”. Na perspectiva do escritor de Hebreus, o cristão é alguém que está sempre em movimento para o futuro. Direccionado para a eternidade que se alcança em Cristo, o cristão não se pode dar ao luxo de se deitar à sombra da bananeira. O seu trabalho é a evidência de que ama a Jesus Cristo e as pessoas à sua volta. O cristão é um trabalhador activo, participativo, interessado, não só nas coisas de Deus, mas também no seu labor terreno. Mas ele trabalha em função do propósito divino e não na base dos seus planos. Os objectivos que ele alcança aqui na terra tem uma dimensão muito mais profunda do que a mera satisfação do seu eu. A pessoa desespera porque não consegue atingir os seus objectivos, e, quando os alcança, mesmo assim não fica satisfeito a ponto de planear novos objectivos. Isto não acontece com o cristão que, sabendo qual é o seu destino – a eternidade, envolve-se com paixão naquilo que faz, pois sabe que está a engrandecer o nome do seu Senhor e a ajudar aqueles que estão à sua volta, para que eles reconheçam que Jesus Cristo é o único Senhor que merece ser servido.
A terceira característica do cristão é a imitação dos exemplos dignos de serem imitados. O cristão não imita aqueles que são movidos pela ambição e ganância, mas sim aqueles que são incentivados a herdar as promessas de Deus. Quando Jesus disse “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça”, terminou dizendo que “todas as outras coisas vos serão acrescentadas”. Com estas palavras, ele estava a dizer que jamais viveremos o desespero quando os nossos olhos estão colocados no alvo da eternidade. Esta promessa de Deus é alcançada quando imitamos aqueles que foram fiéis e pacientes no seu dia-a-dia. A palavra “fé”, no texto supra citado, tem como raiz o termo que define “fidelidade”. Toda a nossa vivência tem a ver com fidelidade, pois aquilo que o ser humano mais teme é ser objecto de infidelidade. Ninguém suporta que lhe sejam infiéis, mas ninguém não olha a meios, recorrendo-se da própria infidelidade, para atingir os seus fins. O cristão pauta-se pela fidelidade a Cristo, sabendo que Ele é o seu Senhor. Quem é fiel ao Senhor, também é fiel no seu viver diário. Por outro lado, vale a pena imitar aqueles que são pacientes. Em grego, a palavra para “paciência” (makrothumia) é composta por duas palavra que poderíamos interpretar como “um grande princípio da vontade, da inteligência, dos sentimentos e das paixões”. Ser paciente significa viver por muito tempo o princípio fundamental da nossa existência – a esperança plena.
