TEMPOS DE REFRIGÉRIO

 

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, de sorte que venham os tempos de refrigério, da presença do Senhor” (Actos 3:19)

Terminou mais um fim-de-semana, que, de acordo com as experiências de cada um, foi bom ou mau, foi espectacular ou um desgosto, foi uma realidade ou uma ilusão. Sabemos que as experiências condicionam o nosso estado de espírito. São elas que nos indicam o aspecto positivo ou negativo da vida. No entanto, não podemos esquecer que elas são produto das nossas escolhas. E as escolhas são feitas de acordo com os objectivos que queremos alcançar.

Na leitura de Actos 3:12-19, destaquei aquele versículo depois de reflectir na narrativa do autor Lucas sobre o evento que ocorreu junto ao templo de Jerusalém. A tecedura da narrativa mostra-nos um espaço singular, onde as personagens se movimentam. Esse espaço é visto como o ponto de convergência de três tipos de pessoas: Os que ali vão receber sem precisarem (o povo); os que vão receber porque precisam mesmo (o coxo desde a nascença) e os que vão para dar (Pedro e João). Os que precisam mesmo são uma ínfima percentagem, os que dão são uma percentagem reduzida e os que nem precisam mas vão para receber são a maioria. Pedro e João certamente já tinham aprendido o ensino de Jesus de que mais bem-aventurada coisa é dar do que receber. Portanto, o seu objectivo em ir ao templo é para dar algo que eles têm. “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou”, disse Pedro àquele mendigo que era colocado ali todos os dias por algum familiar ou amigo. E, quando ele deu o que tinha, aconteceu o milagre. Tudo bem. Houve alegria. Houve louvor a Deus. Entretanto, impressionante na trama da narrativa é a caracterização do povo: pasmado, assombrado, atónito, admirado. Parece que o povo nunca tinha experimentado nada igual. A realidade é que o povo iria à espera de receber mas sem esperança que recebesse alguma coisa. Partiam, todos os fins-de-semana, para o templo com uma atitude de resignação: “Vamos lá pedir a Deus que nos abençoe, mas sabemos que tudo vai continuar na mesma. No início da semana voltamos ao trabalho, às encrencas, ao mau ambiente, à maledicência, à chatice e nada muda. No próximo fim-de-semana cá estaremos outra vez para cumprir o nosso dever religioso”. Nada acontece para eles. Mas, quando acontece alguma coisa, deixam-se enredar pelo estupor, pelo êxtase, pela estupefacção, pela admiração. O relevante é que todas estas palavras são sinónimo de paralisia, imobilidade. Perante esta situação o povo é confrontado com uma situação que certamente não estava à espera. Pedro disse claramente que a sua atitude de paralisia, de resignação com a vida, é que tinha levado Cristo à morte. O povo que Deus tinha escolhido negou, entregou e matou o Príncipe ou Autor da vida. Este povo vinha ao templo, mas não conseguia respirar o ar fresco que Deus lhe proporcionou quando ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos. O povo só estava interessado em receber, mas mesmo assim não conseguia obter resultados porque se mantinha resignado com a vida, não queria acreditar que Jesus pudesse fazer a diferença na sociedade de então. Por isso, preferiram pedir um salteador e homicida, negando o Santo e o Justo. O povo vive atrofiado com todo o tipo de poluição que paira à sua volta e precisa que “venham os tempos de refrigério da presença do Senhor”.

O pecado (do venha a nós) não deixa o povo respirar o verdadeiro ar puro. A palavra “refrigério” traduz o termo grego anápsuksis, que tem implícita a ideia de “espaço para respirar”, “relaxe”, “alívio”. A palavra “tempo” (kairós) denota o momento da intervenção de Deus em qualquer geração. Este tempo não é cronometrado, pois está muito acima dos segundos e minutos que os ponteiros do relógio marcam. Quando o povo não vive esta experiência na presença do Senhor só há um caminho a tomar: Arrepender-se e converter-se. A palavra “arrepender” (metanoéô) tem a ver com “mudança de mente”. O nosso pensamento e mentalidade têm de mudar para se conformar com o pensamento de Deus. O “converter” (epistrépfô) significa “fazer inversão de marcha” e começar a caminhar em direcção ao alvo que Deus tem para nós. Isto é o que temos de fazer se queremos que os nossos pecados sejam apagados. Se nos queremos ver livres deste pecado que nos atrofia todos os fins-de-semana, precisamos de ter aquilo que é fundamental para dar aos outros. Vamos ao culto para dar o Senhor Jesus Cristo àqueles poucos que ainda não O têm. Só quem respira o ar puro da presença do Senhor é que não fica paralisado com o que acontece aos fins-de-semana, pela acção poderosa de Deus.



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