O Livro da Renovação Espiritual

Quem nunca terá ouvido falar de “O Código Da Vinci”? Já há uns bons meses que este livro continua a ser o primeiro da lista dos mais vendidos nas nossas livrarias. E a pergunta que se coloca, nesta altura, é: Por que razão as pessoas se interessam tanto por este livro? A propósito de um documentário sobre este livro, a RTP 1 apresentou um debate onde, além da questão de Maria Madalena e a relação da Igreja Católica com a mulher, se perguntou qual a razão para tanto interesse por este livro. Joaquim Carreira das Neves, teólogo e professor na Universidade Católica, afirmou algo que já muitas pessoas vinham a afirmar no meio evangélico. A razão desta procura e interesse por este tipo de livros está no facto de as pessoas sentirem que a ciência falhou nos seus diagnósticos sobre o futuro. As pessoas tinham a expectativa de que a ciência daria resposta às grandes questões da vida. A ciência foi endeusada e não correspondeu a essas expectativas. Deste modo, as pessoas voltaram-se para uma espécie de espiritualismo. E estes livros apresentam uma amálgama de conceitos vinculados ao espiritual em oposição ao material e à explicação, muitas vezes redutora, da ciência sobre o ser humano. João César das Neves, economista e professor também na Universidade Católica, via na obra e até no debate tentativas para se fazer desacreditar a Igreja Católica. É possível que alguns comprem a obra só para poderem juntar argumentos que ataquem a instituição, que em muitas coisas não foi clara e transparente para com o povo através dos séculos de história. Contudo, parece que o factor espiritual é o motivo para a leitura deste tipo de obras. Nunca as pessoas sentiram tanta necessidade de uma busca espiritual para o seu interior como no fim do século XX e início do XXI. Mas o seu objectivo é formarem algo seu, pois não querem que seja um Deus superior a estabelecer as regras do jogo. Teresa Guilherme, numa entrevista que deu à “Dica da Semana” de 10 de Março de 2005, expressa claramente esta ideia. À pergunta: Quando é que se começou a interessar pelas questões do Além”, ela respondeu: “Há muitos anos. Há uma altura da nossa vida em que nos começamos a interrogar sobre o que é que fazemos aqui e nessa altura eu comecei a interessar-me por esta matéria e a ler sobre o assunto. A partir desta pesquisa, … formei a minha própria opinião sobre o Além e construí a minha própria ‘religião’”.

As pessoas lêem muitos livros na esperança de encontrarem as respostas às suas inquietações e esquecem-se que a Bíblia é um livro que, por excelência, desde a antiguidade, apresenta a verdadeira resposta para o problema do ser humano. Enquanto as sociedades se foram organizando com base nos princípios bíblicos, houve progresso, desenvolvimento e melhoria de vida. Mas quando o progresso começou a ser visto como a solução para os problemas do ser humano, voltou novamente a miséria, a dor, o sofrimento e a tragédia. Tudo isto está patente nas milhares de pessoas que morrem de Sida, nos atentados terroristas, no aumento do número de pessoas a viverem abaixo do limiar da pobreza, enquanto um pequeno número enriquece exageradamente e tantas outras maleitas na nossa sociedade.

Ao lermos o texto bíblico de Neemias 8:1-3, aprendemos três lições fundamentais para que haja uma renovação espiritual verdadeira. O povo judeu acabara de viver uma experiência de cativeiro na Babilónia, devido à libertação concedida pelo rei persa, Ciro. O cativeiro tinha sido um ponto marcante na vida do povo judeu, que o viu como uma consequência da sua falta de vida espiritual. O seu relacionamento com Deus esmoreceu porque também a leitura de Lei de Deus fora posta de parte. Agora, sete meses depois de Artaxerxes ter permitido que Neemias viesse a Jerusalém reconstruir os muros da cidade, o povo sente que não pode continuar a viver longe de Deus.

A busca por uma renovação espiritual começou por uma consciência do povo em se juntar. Apesar de cada um estar nas suas cidades, o povo sentiu que a sua vitalidade espiritual começava com o agrupamento, a junção de todos: homens, mulheres e os que podiam entender. Este pensamento é precisamente o oposto das ideias modernas de que cada um pode viver a sua espiritualidade à sua maneira e de acordo com o que entende ser melhor para si, ficando até em casa. A nossa verdadeira espiritualidade desenvolve-se no relacionamento que temos uns com os outros. Foi por isso mesmo que Jesus, a cabeça da igreja cristã, disse: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros”. É na comunhão, no ajuntamento, na congregação que experimentaremos essa renovação espiritual, combatendo o individualismo tão característico na nossa sociedade moderna.

A busca por uma renovação espiritual continuou no pedido feito a Esdras para que trouxesse o livro da lei de Moisés que o Senhor tinha ordenado a Israel. Este pedido é o reconhecimento de que havia um livro, provavelmente o texto que hoje temos em Deuteronómio 12-26, que apresentava os princípios de vida que Deus queria que o povo vivesse. O povo reconhecia que Moisés tinha sido um servo de Deus digno de receber as ordenanças que Deus preparara para o povo. A lei não significava uma série de regras, mas antes uma série de princípios que trariam uma qualidade de vida extraordinária para o povo. A lei procura mostrar o amor de Deus pelo ser humano ao querer que ele viva uma boa relação com os outros e com o próprio Deus. A lei é a revelação da vontade de Deus. Quando o povo conhece a vontade de Deus através desta lei, torna-se sábio e entendido de tal modo que apresenta uma qualidade de estilo de vida capaz de maravilhar os outros povos. Se queremos experimentar uma renovação espiritual, temos que pedir que seja lida a lei de Deus, a revelação da vontade de Deus. Nós precisamos de conhecer a vontade dele e não a nossa. Sempre que colocamos a nossa vontade acima da vontade de Deus não há renovação espiritual.

A busca por uma renovação espiritual completa-se na atenção devida à lei de Deus. No texto bíblico que referimos, o autor descreve que todo o povo, reunido à Porta das Águas, esteve ali desde a alva até ao meio-dia e ouvia com atenção a leitura do livro da lei. A descrição de estarem junto da Porta das Águas transmite a ideia de refrescamento. O povo estava sedento da palavra de Deus. Portanto, é nestas circunstância que se pode ver como as pessoas reagem de forma diferente à leitura da vontade de Deus. Isto faz lembrar aquelas pessoas que, estando debaixo de um calor intenso, têm grande prazer em ficar longas horas dentro de água a refrescar o seu corpo. Há muitas pessoas que, quando ouvem a palavra de Deus pela primeira vez e anseiam conhecê-la, nem se dão conta das horas a passar. Esta é a prova clara de que só este livro, que expressa a vontade de Deus, pode iniciar uma verdadeira renovação espiritual em nós. Se, com o tempo, vamos perdendo esta vontade, precisámos de nos lembrar do que aconteceu connosco quando iniciámos esta aventura no estudo da bendita palavra de Deus.

Em conclusão, voltamos a reiterar que só há um livro capaz de nos renovar espiritualmente. É a Bíblia, a palavra de Deus. Ela incentiva-nos a reunirmo-nos com outros que também têm vontade de a conhecer; Ela incentiva-nos a pedirmos que seja lida na congregação; Ela incentiva-nos a ouvirmos com atenção o que tem para nos dizer, sem olhar a horas.



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