Palavra que Instrui
Escrito por: Virgílio Barros | Categoria: Mensagem
A palavra que destacamos do texto de 2 Timóteo 3:16 e que serve de base para a nossa meditação de hoje é a palavra grega paideia. Normalmente tem sido traduzida por “instrução”. Segundo o dicionário da Língua Portuguesa, esta palavra tem como significado o seguinte: “Conhecimento que se dá a alguém de certos factos, de certos usos que ignora. Saber, conhecimentos adquiridos; O conjunto de várias noções rudimentares do saber humano; as primeiras letras”.
Werner Jeager escreveu uma obra intitulada precisamente “Paidéia – A Formação do Homem Grego”. E logo na introdução, para explicar a razão por que usou o termo grego para a sua obra ele escreveu: Não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação; nenhuma delas, porém, coincide realmente com o que os Gregos entendiam por paidéia… Os antigos estavam convencidos de que a educação e a cultura não constituem uma arte formal ou uma teoria abstracta, distintas da estrutura histórica objectiva da vida espiritual de uma nação; para eles, tais valores concretizavam-se na literatura, que é a expressão real de toda cultura superior.” A razão por que ele escreveu esta obra foi porque “ninguém até hoje tentou evidenciar a acção recíproca entre o processo histórico pelo qual se chegou à formação do homem grego e o processo espiritual através do qual os Gregos lograram elaborar o seu ideal de humanidade.” Por conseguinte, para os Gregos, a instrução ou educação é o princípio por meio do qual a comunidade humana conserva e transmite a sua peculiaridade física e espiritual.
Esta acção recíproca que Werner Jaeger procurou harmonizar não é novidade. A harmonia entre o físico e o espírito é algo que sempre descortinamos no texto bíblico. É por esta razão que a nossa Escola Bíblica Dominical procura fazer jus a este conceito. Perante a sociedade e para a sociedade, queremos tornar bem claro e ao mesmo tempo defender que a educação das crianças não é uma propriedade individual, mas pertence por essência à comunidade. Cremos que só com a consciência de valores verdadeiros e puros que regem a vida humana é que poderá haver um bom desenvolvimento social. Temos que reconhecer que, quando a educação passou a ser desenvolvida com base no conhecimento científico e materialista apenas, a sociedade começou a desmoronar-se. Sem normas válidas e estáveis não há solidez dos fundamentos da educação. Com a dissolução e destruição de valores espirituais adveio a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer acção educativa.
Numa escola como a que esta igreja procura implementar, baseada em princípios bíblicos e divinos, procuramos demonstrar que o ignorante é aquele que conhecendo muita coisa da ciência, da física, da filosofia e afins não conhece a Bíblia, a qual dialoga muito bem com o homem moderno sem deixar de revelar aquilo que é essencial para a vida espiritual do ser humano. Por outro lado, também procuramos demonstrar que o fanático é aquele que conhecendo os textos bíblicos de cor e salteado, continua a viver um individualismo exacerbado rejeitando todo e qualquer tipo de conhecimento desenvolvido na sociedade. Afinal a vida espiritual não é incompatível com a vida física. A fé não pode nem deve ver a ciência como seu inimigo número um e vice-versa. Queremos que a acção educativa seja absoluta, global.
Vejamos como um historiador cristão usou os seus conhecimentos seculares e os harmonizou com a mensagem espiritual. A forma como ele narra e desenvolve este episódio mostra que A Palavra que Instrui denuncia o fanatismo e promove um encontro com o verdadeiro Senhor da humanidade.
A verdadeira educação ou formação dá-se quando, nós pais sabemos ajudar os nossos filhos a aplicar e harmonizar os conhecimentos adquiridos na escola ao estudo da Bíblia, e os ajudamos a aplicar os princípios bíblicos a uma vivência coerente na sociedade. Assim em Actos 22:1-10, Lucas narra-nos um episódio na vida de Paulo em que este procura apresentar a sua defesa perante o povo que o acusava de ter profanado o templo.
1. A Palavra que Instrui Denuncia o Fanatismo
O verbo usado por Lucas no livro de Actos, tem o sentido de “treinar, instruir, educar”. Já em Actos 7:22 lemos que Moisés foi instruído ou educado em toda a sabedoria do Egipto. Neste caso, Paulo informa que foi instruído aos pés de Gamaliel. Portanto, para Lucas, este verbo “expressa o aspecto da educação”.
Gamaliel era o neto do famoso Rabi Hillel, fazendo parte de uma escola bastante liberal dentro do Farisaísmo. Este Gamaliel até foi bastante tolerante e cauteloso nas medidas que o Sinédrio queria tomar contra os apóstolos. Por isso, esta referência levantou algumas dificuldades aos estudiosos da Bíblia. A atitude de Gamaliel contrasta com a atitude de Paulo.
Ao dizer que Paulo foi educado aos pés de Gamaliel, Lucas faz-nos reflectir que Paulo não parece ter aprendido ou recebido o espírito tolerante e cauteloso do seu mestre, quando coloca a palavra grega akribeia (= precisão). Esta palavra não é usada em mais lado nenhum do NT, mas é usual nos escritos gregos para falar do “rigor” da lei (e.g. Isócrates). A versão tradicional de João Ferreira de Almeida traduz por “verdade”, enquanto que a actual traduz por “precisão”. Ao mesmo tempo ele refere a “lei dos nossos pais”.
O que Lucas demonstra com este discurso é que Paulo até podia ter tido um bom mestre, mas o seu medo e espécie de reverência pela lei levou-o ao fanatismo, assim como todos aqueles que o ouviam naquele tempo. A palavra para “zeloso” em várias ocasiões é traduzida por “ciumento”, “invejoso” (Act 17:5).
O seu fanatismo levou-o a perseguir o Caminho até à morte. A palavra caminho aponta para a forma de ser e estar na vida. Aqueles que seguiam o Caminho viviam em plena liberdade e bem-estar na vida que levava Paulo a ter inveja, raiva e desejo de matar, prender tanto homens como mulheres. Jesus Cristo havia proclamado que ele era o Caminho, a Verdade e a Vida e ninguém iria ao Pai senão por ele (João 14:6).
Em nome de Deus os fanáticos continuam a dominar e a chacinar milhares de pessoas, desde crianças a mais idosos. Usa-se o nome de Deus para se esconder os interesses económicos e políticos e assim se poder controlar o que se quer. A concepção que se tem muitas vezes de Deus é distorcida, porque através dos tempos certos líderes religiosos algozes e a ignorância do povo têm pautado e moldado essa imagem de Deus.
2. A Palavra que Instrui Promove o Encontro com o Senhor
Neste testemunho de Paulo, Lucas realça, através de imagens, a experiência extraordinária ocorrida naquele tempo. Foi preciso que Paulo saísse da sua terra, da região que se ufanava como sendo o lugar da habitação de Deus, para ter um encontro com o Senhor. Damasco era uma cidade paradisíaca. Aquela região era um belo oásis regado por um sistema de diversos rios e canais, enquanto toda a região para oriente era semi-árida. Paulo dirige-se para o oásis com intenções de destruição que era apanhar e arrastar mais cristãos até Jerusalém.
A educação de Paulo não estava completa. Faltava-lhe algo de especial. Precisava de um encontro com o Senhor. E foi em terras de Gentios que Paulo obteve essa experiência. Lucas realça que foi num momento crucial do dia, ao meio-dia. Quase que poderemos dizer que também foi a meio da sua vida que houve uma mudança tremenda na sua vida. O símbolo da luz indica que até aqui Paulo andou em trevas. Foi necessário que a luz o rodeasse. Isto denota a experiência singular e pessoal de Paulo. O brilho desta luz do céu não tem que ser propriamente um fenómeno físico, mas a singularidade aponta para algo muito pessoal e íntimo. Só quando somos tocados pela luz divina no nosso íntimo é que podemos dizer que a nossa formação se completa.
A própria referência à voz refere que isto se passou também pessoalmente, uma vez que os acompanhantes de Paulo não ouviram essa voz, mas contemplaram ou tiveram a percepção do efeito da luz. Paulo estava prostrado por terra, o que deve ter provocado algum espanto nos que o acompanhavam. De qualquer forma, ele tem um encontro pessoal com Jesus que o leva a perguntar: “Senhor, que farei?”.
Paulo estava pronto a reconhecer que Jesus era o Senhor do universo e da sua vida. Ele desejou, tocado pela luz divina, entregar a sua vida àquele a quem perseguia. Contudo, faltava ainda alguma coisa mais. Ele precisava de continuar a ser instruído. Por isso, foi para Damasco e esperou por alguém que o Senhor enviaria para o ajudar a crescer na vida cristã.
Esta palavra que instrui tem o poder de modificar a nossa vida pela acção de Deus em nós. Rejeitando o fanatismo e a ignorância características dos nossos dias, desenvolvamos a verdadeira paideia que Deus claramente quer criar em nós.
